Percorra o Siq em Petra e olhe cuidadosamente para as paredes. Entre as estriações naturais da pedra arenítica, encontrará canais esculpidos com cerca de 20 centímetros de largura e 10 centímetros de profundidade a correr de ambos os lados do cânion. Estes canais, cortados com extraordinária precisão há 2.000 anos, faziam parte de um sistema hidráulico que recolhia, armazenava e distribuía água por toda a cidade. Tubagens de terracota encaixadas no interior transportavam água sob pressão. Petra, numa das regiões mais áridas da Terra, tinha água corrente.
Esta inteligência de engenharia é a chave para compreender os nabateus. Não eram habitantes passivos de um cânion conveniente. Eram os mestres de um império comercial construído sobre dois alicerces: o controlo das rotas terrestres de incenso entre a Arábia e o Mediterrâneo, e a capacidade de sobreviver — e prosperar — em ambientes onde outros não conseguiam. A água era a sua vantagem competitiva no deserto. A sua cidade em Petra era a expressão mais espetacular dessa vantagem.
Origens: de tribo nómada a império comercial
Os nabateus aparecem nos registos históricos pela primeira vez por volta do século IV a.C. Quando o general macedónico Antígono tentou submetê-los em 312 a.C. — o relato mais antigo de contacto militar direto — encontrou um povo deliberadamente nómada: sem assentamentos permanentes, sem agricultura, sem vinho. O historiador grego Diodoro Sículo registou a sua recusa em submeter-se à vida sedentária.
Este registo é desconcertante dado o que se seguiu: em dois séculos, o mesmo povo tinha construído uma das cidades mais sofisticadas do antigo Próximo Oriente. O que mudou foi o comércio. Os nabateus controlavam as rotas terrestres ao longo das quais o frankincenso e a mirra se deslocavam para norte desde o sul da Arábia (Iémen — a antiga “Arabia Felix”) e para leste em direção à costa mediterrânica. Estes aromáticos eram commodities essenciais no mundo antigo — usados em ritual religioso, medicina, embalsamamento e cosméticos por egípcios, gregos, romanos e todos os povos entre eles.
Os engenheiros da água do deserto
O sistema hidráulico nabateu em Petra é uma realização extraordinária. O sítio recebe muito pouca precipitação — talvez 100 a 150 mm por ano — mas os nabateus capturavam virtualmente cada gota. Uma extensa rede de:
- Cisternas esculpidas diretamente na rocha, algumas com capacidade para dezenas de milhares de litros
- Barragens através de wadis para capturar água das cheias súbitas
- Canais cortados nas paredes dos cânions para direcionar água para cisternas
- Tubagens de terracota para distribuição pressurizada
…permitia que uma cidade de 20.000 a 30.000 pessoas sobrevivesse e se expandisse num cânion desértico.
Arquitetura: a cidade esculpida
A arquitetura de Petra reflete uma estética nabateia que mistura tradições gregas helenísticas, egípcias e árabes indígenas. As fachadas esculpidas que se veem por todo o sítio — o Tesouro, os Túmulos Reais, o Mosteiro — não são edifícios no sentido convencional. São fachadas esculpidas diretamente na face da falésia de arenito, com câmaras interiores cortadas por trás.
O Tesouro (Al-Khazneh) — O monumento nabateu mais famoso, provavelmente construído como mausoléu real para o Rei Aretas III por volta de 100 a.C. A fachada helenística (capitéis coríntios, frontão partido, frisos clássicos) reflete a cultura cosmopolita da corte nabateia.
O Mosteiro (Ad Deir) — O maior monumento nabateu esculpido, com 48 metros de largura e 45 metros de altura. Provavelmente construído no século I d.C., mais tarde reutilizado como igreja bizantina.
Os Túmulos Reais — Uma série de fachadas monumentais na face da falésia oriental: o Túmulo da Urna, o Túmulo da Seda, o Túmulo Coríntio e o Túmulo do Palácio. O Túmulo da Urna foi convertido em igreja bizantina em 447 d.C.
A Rua Colunada — Ao contrário dos monumentos esculpidos, o Cardo romano (rua colunada) representa construção de alvenaria livre do período pós-anexação (depois de 106 d.C.).
Comércio: as rotas do incenso
A rede comercial nabateia estendia-se desde o porto de Gaza na costa mediterrânica até às terras altas do sul da Arábia onde crescia o frankincenso. A rota terrestre do sul da Arábia até Petra tinha aproximadamente 2.400 km. As caravanas de camelos percorriam 25 a 30 km por dia, tornando a viagem de cerca de 80 dias em cada sentido.
Para além do frankincenso, os nabateus comerciavam mirra, betume do Mar Morto, cobre do Sinai, especiarias da Índia chegando pelos portos árabes, seda da China e produtos agrícolas do Vale do Jordão.
Religião e escrita
A religião nabateia era politeísta, com uma divindade principal chamada Dushara e uma deusa companheira, Al-Uzza. A prática religiosa incluía a veneração de blocos de pedra (betis) — simples pedras retangulares esculpidas representando a presença divina. Podem ver-se exemplos por todo o sítio de Petra em nichos esculpidos.
O alfabeto nabateu é historicamente significativo: é uma forma cursiva do aramaico que se tornou o ancestral direto do árabe. Quando se lê árabe — em sinais de loja, no Alcorão, numa mensagem de texto — usa-se um alfabeto cujas origens remontam aos comerciantes de Petra.
Aretas IV e o auge do reino
O maior rei nabateu foi Aretas IV, que reinou de 9 a.C. a 40 d.C. Sob o seu governo, o reino atingiu a sua máxima extensão e Petra a sua maior prosperidade. Aretas IV é mencionado no Novo Testamento (2 Coríntios 11:32). O seu programa de construção em Petra foi extenso e centenas de moedas com a sua imagem sobrevivem.
Declínio: a anexação romana de 106 d.C.
O reino nabateu terminou não por conquista mas por absorção. Em 106 d.C., o Imperador Trajano anexou o reino e criou a nova província romana da Arábia. O último rei nabateu, Rabbel II, tinha morrido sem providenciar uma sucessão clara; os romanos avançaram sem resistência significativa.
Petra permaneceu habitada e próspera sob domínio romano — a rua colunada e os edifícios urbanos datam do período pós-anexação. Mas as rotas comerciais que tinham sustentado o reino começaram a mudar. Um grande sismo em 363 d.C. danificou ainda mais a cidade. Foi efetivamente abandonada no século VII.
Arte e estética nabateia
Cerâmica pintada: A cerâmica pintada nabateia é uma das mais finas e tecnicamente realizadas alguma vez produzida no antigo Próximo Oriente. As paredes finíssimas eram conseguidas através de uma combinação de argila fina processada e habilidade no torno.
Escrita nabateia em rocha: Por todo o antigo território nabateu — em Wadi Rum, no Sinai, ao longo da rota do incenso no Neguev — sobrevivem inscrições rupestres em alfabeto nabateu em números consideráveis.
O legado nabateu na Jordânia moderna
A presença nabateia na Jordânia estende-se muito além de Petra:
Pequena Petra (Siq al-Barid) — Um pequeno assentamento nabateu a 8 km a norte do sítio principal de Petra, de entrada gratuita e muito menos concorrido. O biclínio pintado com as suas pinturas de videira no teto é um dos espaços interiores nabateus intactos mais finos que sobrevivem.
Petroglífos de Wadi Rum — Inscrições nabateas esculpidas na pedra arenítica de Wadi Rum — alguns dos primeiros exemplos do alfabeto nabateu. Veja Wadi Rum.
Perguntas frequentes sobre a civilização nabateia
Os nabateus eram árabes?
Sim. Os nabateus eram um povo árabe — o primeiro grupo árabe a estabelecer um grande Estado e a deixar um registo arqueológico e escrito substancial.
O que aconteceu aos nabateus após a anexação romana?
A população nabateia não desapareceu. Assimilou-se à cultura provincial romana da Arábia, adotando gradualmente o grego e o latim em contextos oficiais, mantendo as suas próprias tradições e alfabeto. O alfabeto nabateu evoluiu para o árabe primitivo.
Como construíram os nabateus os seus monumentos esculpidos?
As fachadas esculpidas foram criadas começando pelo topo da face da falésia e trabalhando para baixo. Os operários em andaimes ou cordas cortavam a cornija superior primeiro, depois as frisos e colunas, depois os elementos da fachada inferior.
Petra é o único sítio nabateu na Jordânia?
Não. Existem vestígios nabateus em muitos sítios por todo o sul da Jordânia: Pequena Petra (Siq al-Barid), Wadi Rum e vários outros sítios ao longo das antigas rotas comerciais. Mas Petra é incomparavelmente o mais completo e impressionante.
Que língua escreviam os nabateus?
Os nabateus usavam uma forma cursiva do alfabeto aramaico. O seu próprio idioma falado era provavelmente uma forma do árabe do norte. O alfabeto nabateu é o ancestral direto do árabe — uma linha de descendência que moldou a forma como 300 milhões de pessoas leem e escrevem hoje.
Planeie a sua visita
Compreender o contexto nabateu transforma uma visita a Petra de espetáculo em história. Para o sítio em si, veja o guia completo de Petra. Para a história paralela das cidades romanas da Jordânia, veja o guia da Decápolis.
Visita guiada privada de 3 horas a Petra: Tesouro, Túmulos Reais, Cardo Romano Petra à noite: espetáculo musical no Siq e no Tesouro iluminados por velas